The Café Campana. foto: adriana felippe, out/2014


foto: adriana felippe, out/2014

"Eu não quero seguidores. Eu quero que as pessoas pensem por sua própria cabeça, tomem suas próprias decisões e respondam por elas." (Guy Debord)

GERMINAÇÕES: expansões poéticas

CONTOS QUE AS FADAS NÃO CONTAM

sábado, 11 de fevereiro de 2017

IMANÊNCIA

Sinto-me germinal. 
Um dia serei adubo, mas eterna busca pelo desabrochar.

Quando as grades convertem-se em Canteiros.

É preciso desabrochar até onde for possível, com toda a alma. Kazuo Ohno


Estilhaçamento de átomos.  Para os estoicos a morte nada mais é que um processo - eterno - de reorganização dos átomos.  A matéria que decompõe-se, ressurge, transformada.  Aprecio essa proposta de salvação da alma. Gosto de pensar que serei perpetuada; que meus átomos estarão por aí, espalhados.  Sobreviverei no Sol, nas estrelas, no orvalho fugaz, no caixote de frutas, no papel de seda que embala a pera portuguesa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CANTEIROS


SEMENTE ABDIAS*


  Uma irmã de meu pai era muito parecida com Abdias, tinha o olhar forte cheio de ternura, rosto leve, bonito e gentil, onde vagava suave um jeito de poesia.
  Minha tia trabalhava como cozinheira, ganhava muito pouco e gastava quase todos os seus ganhos comprando passarinhos em gaiolas que eram vendidos nas feiras livres da cidade.
  Ela carregava suas gaiolas até uma mata próxima de sua casa e ali, com grande alegria, soltava seus pássaros, observando os voos.
   Um dia minha tia Maria ficou doente.  Minha mãe dizia que ela não se tratava, gastando seu dinheiro com passarinhos.  Que iria morrer em algum hospital como indigente. Meu pai dizia:
    - Este negócio de morte não é com a Maria.  
     Minha mãe, irritada, dizia: - Quer dizer que sua irmã vai virar semente?
      E meu pai respondia orgulhoso:  
    - Ela já é semente.  Semente Maria.  
   Abdias é semente.  Criou muitas árvores em vários cantos do planeta. Nos olhos fortes havia uma ternura grandiosa. Em seu rosto leve, a poesia de todos os poetas.  Esse negócio de morte nunca foi para Abdias, semente Abdias.
Iara Rosa é poeta e artista plástica. Este texto foi escrito em Armação dos Búzios,
no Rio de Janeiro, em outubro de 2011, após o falecimento de Abdias.

 
           

Eu acredito na força da germinação. Acredito que seja possível cultivar flores em meio a escombros.
GERMINAÇÕES: expansões poéticas. Set/2016

     

Projeto GERMINAÇÕES: expansões poéticas 2016-2019. AMAP-associação de Mães e Pais Funcionários do Tribunal de Justiça de São Paulo - Complexo Criminal Barra Funda

       *OCUPAÇÃO ITAU CULTURAL ABDIAS NASCIMENTO
         

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

domingo, 22 de janeiro de 2017

SE QUERES SER UNIVERSAL

começa por pintar a tua aldeia.
Liev Tolstoi (1828-1910)



"Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la. E comer um fruto é sabê-lo o sentido." Alberto Caeiro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

TO BE OR NOT TO BE

 SER, ESTAR, PERMANECER, FICAR
Na consciência da efemeridade o essencial é perpetuado.


Ophélia, 1889. John William Waterhouse. Óleo s/tela. Coleção Privada.

Presença Ausente, 2014. "(...)Ofélia gentil! Ninfa, em tuas orações sejam sempre lembrados meus pecados." Hamlet


Ato III, cena I
     Elsinor, na sala do castelo
HAMLET – “Ser ou não ser, eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim?
Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono dizem extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer, dormir
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite
e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, 
as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal?
Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma
coisa após a morte
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante
nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

(Tradução de Millôr Fernandes)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

POESIA MULHER: idiossincrasias

"(...) o cheiro dos gomos pisados
alastra-se feitos um boato
          e eu no espinheiro, sem rumo
       
         

          longe, o chão de pedregulhos

          a flor essência saxátil."    Rastros (fragmento) Claudia Roquete Pinto



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COISA PARA SE CONTAR: como PERMANECER sólido?


"Na minha dança eu nunca me preocupei em saber se o que eu criava era ou não era Butoh, só pensava em fazer algo bom. Entretanto, nunca estive satisfeito com minha dança. Eu danço movido por um sentimento de gratidão. O que me interessa é que o Homem, com este corpo tão pequeno, contém todos os elementos do Universo dentro de si. Para mim, se eu não puder dançar esse homem, se não houver essa forma de dançar, não haverá sentido em dançar."    Kazuo Ohno


Chá da tarde: alguns minutos depois, a notícia da morte de Zygmunt Bauman*


E por que quero contar certas coisas? Porque na amálgama tirar/pôr sentido - em tudo/a todo momento - permaneço.


sábado, 31 de dezembro de 2016

VIVER EM TERMOS SAXÁTIL*


Que em 2017 você encontre meios de viver o desabrochar
em termos de aridez.
O bem inexiste, o mal também.
O que há são as experiências, os rastros, as transformações,
o estado de poesia.

SAXÁTIL**, 31.12.2016. Instalação. Chita, fitas de cetim, galho de Terminalia catappa (chapéu de Sol)

*Saxátil: que habita entre pedras/que cresce ou vive em rochedos.
Fonte: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/sax%C3%A1til

**Saxátil: que aprendeu a crescer e habitar na aridez.


sábado, 24 de dezembro de 2016

COMUNHÃO DE BENS


Dê o que seus pés mais desejam: afagos.
Meu melhor presente: minha atenção, minha gentileza, minha dedicação, meu zelo, meu tempo. Isso é precioso. Fica, vai ter rabanada.

Desato – Viviane Mosé

É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camadas de cosméticos e de adereços.
Uma camada de nomes e de coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.
Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)

Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como um abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo.
Com os olhos. Ou com as mãos.
Minha casa tem silêncios
Que às vezes ouço. Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda.
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço.


sábado, 12 de novembro de 2016

TU NON MI CONOSCE PIÙ

Tal como Demócrito* em seu jardim, sou meu próprio teatro, afastado dos problemas e dos tumultos do mundo, feito um sábio estóico num só olhar observando todas as eras passadas e presentes.  Robert Burton**

UM GRITO DE LIBERDADE; só ganhei em perder. 12.11.16, 19h47

Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito. Shakespeare, Hamlet, Ato 2, Cena 2.


*Filósofo grego, século IV a.C.
**autor de A ANATOMIA DA MELANCOLIA, 1586.